Os Elefantes Africanos Voam Melhor…

Os Elefantes Africanos Voam Melhor…

– por Pedro Cavalheiro, nosso herói do Esperanto

– (Não se esqueçam de clicar nos links! São muito interessantes.)

Ultimamente venho ouvindo e lendo um verdadeiro festival de desinformação sobre a língua internacional esperanto motivado pelo Projeto de Lei do Senador Cristovam Buarque, que introduz o ensino optativo dessa língua no ensino médio, através de aditivo à Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional, a LDB.

Impressionante! Quanto barulho por nada! Aqui vigora a máxima que diz: “Na falta de conhecimento sobre um assunto, emita-se uma opinião”. Esse é um comportamento comum ao ser humano, até nos meios acadêmicos e, infelizmente, também nos meios de comunicação.

Aqui vai INFORMAÇÃO sobre o tema:

O projeto de Lei, mencionado acima, apenas cria na LDB a possibilidade de se ensinar a língua internacional esperanto no Ensino Médio. Não obriga e, portanto, não cria demanda atabalhoada de professores de esperanto. Então, o pânico de como iremos abastecer o ensino com professores dessa língua não tem o menor sentido.

Mas, por que criar esse dispositivo na LDB?

No quesito línguas, a LDB, até o momento, apregoa o ensino da língua pátria e de línguas estrangeiras. O esperanto não é uma coisa, nem outra. E, portanto, tecnicamente não tem espaço na LDB. O Brasil é signatário de duas resoluções oficiais da UNESCO em favor do esperanto, onde se compromete a divulgar e facilitar o ensino dessa língua.  Incluir na LDB um artigo que permite o ensino da língua, e não obriga, é simples ajuste legal na Lei máxima do ensino brasileiro, para que o esperanto possa ser ensinado nas escolas que se interessarem por ele. Apenas isso.

Mas, e o mérito?

O esperanto é visto pela UNESCO como uma ferramenta viável de comunicação internacional democrática entre as nações e como instrumento de proteção à diversidade linguística. Primeiro, por ter sobrevivido sem pátria por 123 anos, passado por duas guerras mundiais, com direito a extermínio de esperantistas em campos nazistas; ter crescido e ser falado hoje por milhões de pessoas, sem conhecer barreiras étnicas, possuir vasta literatura original e traduzida (a biblioteca da Associação Universal de Esperanto tem algo em torno de 20.000 títulos de livros na língua), jornais, periódicos, músicas etc., já demonstra sobejamente que essa língua é indiscutivelmente viável.

Depois porque o esperanto não pratica invasão cultural e não quer dominar ninguém a partir de imposição de língua e de cultura, porque não existe uma “Esperantolândia” para tomar nossa Amazônia, por exemplo, ou para tomar o petróleo do Iraque, ou tomar… qualquer coisa alheia. No caso da cultura, tomar a alma alheia.

Enquanto gente desinformada põe em dúvida o mérito do esperanto, a China adotou-o como matéria opcional nas escolas, e universidades do país têm curso de pós-graduação em esperantologia. Enquanto os intelectuais tupiniquins discutem se “uma língua artificial pode dar certo”, na Hungria a Língua Internacional Esperanto já é matéria de vestibular desde 2000. Lá o aluno pode optar no vestibular em prestar exame ou de alemão, ou de inglês, ou de lovária (língua de uma etnia cigana muito presente na Hungría) ou de esperanto. E, pasme, o esperanto é uma das línguas mais procurada pelos vestibulandos. Não por ideologia e sim porque é mais fácil e rápido de aprender.

Enquanto gente de peso ou pose emite “opiniões” sem conhecer absolutamente nada sobre a língua internacional (sobre seu comprovado valor pedagógico como facilitador do aprendizado de línguas, por exemplo), eu uso meu navegador Mozilla, em esperanto, os serviços do Google em esperanto, o Facebook em esperanto (tudo mesmo – até as mensagens automáticas que o Facebook envia para meu correio eletrônico) E muito, muito mais.

Interessante o pragmatismo dessa gente que sabe ganhar dinheiro, não é? A cabeça deles funciona assim: tem público pra consumir o produto em esperanto? Então temos que oferecer nosso serviço em esperanto também. Se bobear, daqui a pouco estaremos pagando direitos autorais a estrangeiros por cursos de esperanto! Porque, enquanto eles desenvolvem paulatinamente o ensino dessa língua de DNA internacional, enquanto aumentam paulatinamente o número de professores habilitados a ensiná-la, desenvolvem material didático, enfim, criam uma infraestrutura para o ensino do esperanto, a gente aqui do país do futuro (com todo respeito ao Stefan Zweig) fica… emitindo opinião.

Tudo bem que opinião é coisa pessoal, foro íntimo e tal, mas não dá para aceitar como válida, por exemplo, a opinião de que elefantes africanos voam melhor do que elefantes indianos porque tem orelhas maiores. Não basta ter opinião sobre alguma coisa: ela tem que estar fundamentada em fatos.

Abraço do ouvinte contumaz,

Pedro Jacintho Cavalheiro

Professor Universitário de História e Patrimônio Cultural e Realidade Sócio-Econômica e Política Brasileira, Mestre pela USP.

Professor de Esperanto e usuário da língua há 34 anos.

Ex-presidente da Liga Brasileira de Esperanto

Presidente da Comissão de Educação da Liga Brasileira de Esperanto

http://esperanto.org.br

Delegado da Associação Universal de Esperanto – UEA, na cidade de São Paulo

www.uea.org


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(Texto original AQUI)